Bate-papo com Paulo Murilo, Técnico, Professor de basquete, e autor do blog Basquete Brasil

Jun 25

A algum tempo a seção bate-papo estava com poucos posts devido a compromissos de ordem diversas e indisponibilidade, mas essa semana tem um bate-papo com o prof. Paulo Murilo técnico do Saldanha da Gama, e aqui ele faz algumas considerações ao basquete nacional, bem como conta um pouco da sua história.

É autor do blog Basquete Brasil.

ESPORTE SOCIAL: Professor queria primeiramente agradecer a atenção e para quem não conhece o seu belo trabalho no basquete brasileiro, defina quem é Paulo Murilo.

Prof. PAULO MURILO: Professor e técnico, jornalista bissexto, na estrada do ensino, do desporto e da informação a mais de 50 anos, um homem simples como deve ser a vida.

ES: Conte para os leitores do Esporte Social como foi inicio de sua trajetória no basquete nacional? E de que forma esse seu caminho inicial moldou o seu belo trabalho até hoje?

Prof. PAULO MURILO: Comecei em 1958 no Grajaú TC inspirado pelo trabalho do técnico Geraldo da Conceição que até hoje, aos 84 anos prepara jovens em Brasília. Fundei a Escola Carioca de Basquete, e não mais parei, estudando sempre, buscando a excelência no trabalho, por mais simples que fosse, pois não existem limites ante o poder da vontade e da determinação. Sou feliz assim.

ES: No Esporte Social abri uma discussão sobre técnicos amadores como há nos Estados unidos, onde os pais pegam as crianças desde idade tenra e iniciam em algum esporte, mas forma descompromissada. Hoje, vejo uma grande resistência para a iniciação partir dos pais e não de associações onde eles pagam e jogam os filhos sem acompanhamento, o que o Senhor acha disso? Há algo a ser feito para que essa iniciação seja tão eficaz quanto nas potências esportivas?

Prof. PAULO MURILO: Sim, bastando levá-la para o seio da escola, matriz de todo o processo educacional e cultural de um país.

ES: Como o Senhor decidiu ser técnico de basquete e quais os maiores desafios do treinador dessa modalidade seja no contexto social, amador, semi-profissional ou profissional?

Prof. PAULO MURILO: Pela sofisticação e permanente desafio emanados do mesmo. Considero o basquetebol o mais refinado e inteligente de todos os desportos coletivos, uma verdadeira e autêntica escola de vida.

ES: Quais são os atributos essenciais para ser um técnico de basquete?

Prof. PAULO MURILO: Talento, sensibilidade e uma base de estudo poderosa e permanente, e acima de tudo amar de verdade o grande jogo.

ES: Como o senhor vê o basquete social praticado nos parques e quadras Brasil a fora, e como esses atletas ocasionais podem melhorar o seu desempenho?

Prof. PAULO MURILO: Como disse e afirmei antes, urge que desloquemos estes jovens para o âmbito da escola, local adequado ao seu pleno desenvolvimento.

ES: O basquete nacional não vive um bom momento em relação ao alto-rendimento. Quais sãs as principais deficiências do basquete de alto rendimento nacional? E quais as alternativas?

Prof. PAULO MURILO: A mediocridade na pratica e ensino dos fundamentos, substituindo-os por um sistema equivocado de jogo, padronizado e sob domínio pleno dos técnicos, retirando dos jogadores o livre pensar e a resultante criatividade. As alternativas perante tal realidade se tornam óbvias.

ES: O que o senhor mudaria no aprendizado do basquete no Brasil?

Prof. PAULO MURILO: O que sempre fiz ao ensinar o jogo pela prática dos fundamentos e pela adoção de sistemas livres e democráticos, de sistemas que ensinam a pensar, a ler o jogo.

ES: Os artigos no Basquete Brasil explicitam de maneira cirúrgica e sem rodeios as principais diferenças do basquete brasileiro, o europeu e o americano. Gostaria que o senhor definisse essas escolas e suas características?

Prof. PAULO MURILO: Os americanos voltados ao comercio e lucro da NBA, com regras próprias, e colocando seu particularíssimo modo de jogar a serviço de uma globalização exasperante e colonizadora, que de tal modo se deturpou, ao ponto de quase perderem a histórica hegemonia mundial na modalidade. Precisou que um técnico universitário, Coach K de Duke, os fizessem retornar aos princípios do grande jogo, principalmente no concerto das grandes competições internacionais, como as olimpíadas.

O basquete europeu, como o restante do mundo, seguindo o ditame das regras da FIBA, praticando o jogo verdadeiro, mas que aos poucos foi adotando alguns comportamentos advindos da NBA, principalmente quanto à forma de administrar as ligas, mas sem o poderio econômico avassalador da matriz.

O Brasil, tentando emular os comportamentos técnicos táticos da NBA, mas sob uma influencia de regras da FIBA, não soube administrar tal dualidade, perdendo aos poucos sua identidade de campeões mundiais por três vezes e quatro vezes medalhista olímpico.

ES: Quais as maiores dificuldades de ser um técnico de alto rendimento? Quais foram às maiores dificuldades nessa sua última experiência como treinador profissional?

Prof. PAULO MURILO: Primeiro o baixo nível administrativo da maioria das franquias nacionais, ocasionando desequilíbrios contábeis, prejudicando treinamentos e preparação para as competições. O técnico de alto rendimento é sensível a tais óbices. Segundo, o pouco embasamento da maioria dos jogadores nos fundamentos do jogo.

ES: Como fazer o basquete brasileiro chegar aos mesmos níveis de desenvolvimento tanto no campo social quanto no alto rendimento do basquete americano?

Prof. PAULO MURILO: Massificando-o, e o único veiculo para tal proposta é a escola.

ES: Caminhos do basquete no Brasil para se reinventar ou sair da atual situação?

Prof. PAULO MURILO: O mesmo da resposta anterior, levá-lo, assim como as demais modalidades para o âmago da escola, onde complementarão o ensino integral dos jovens, os futuros cidadãos e atletas do país, um direito previsto na constituição federal.

ES: Professor quais são os seus projetos em andamento atualmente, e que pretensões o senhor tem para essa segunda metade de 2010?

Prof. PAULO MURILO: Publicar o meu cobrado livro, e dar continuidade ao trabalho iniciado no Saldanha da Gama.

ES: Para finalizar, gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os leitores praticantes do basquete social.

Prof. PAULO MURILO: Amem o grande jogo, fazendo dele uma avant première de suas vidas, pois lá encontrarão o trabalho árduo, a aceitação e entendimento das derrotas e vitórias, a abnegação e o sacrifício, a luta ardorosa e leal, a amizade e a recompensa eterna de tê-lo praticado com determinação e esperança num futuro melhor e mais justo.

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