Em uma troca de emails muito produtiva e amistosa, o Esporte Social entrou em contato com Nilton Dalcim, editor do portal de tênis Tênis Brasil, e autor do Blog do Tênis. Nesse bate papo, Dalcim fala de jornalistas, circuito feminino, tenistas brasileiros entre outros assuntos; sempre com o seu estilo despojado e sem ‘tecnismos’ que permeiam esse tipo de redação.
Esporte Social: É com grande satisfação que hoje estamos com esse bate papo com o grande jornalista e editor do site Tênis Brasil e proprietário do Blog do Tênis, José Nilton Dalcim. Dalcim primeiramente conte como começou a sua relação de amor com o tênis e a partir de que momento você criou coragem para escrever sobre tênis, e pra quem não conhece quem é José Nilton Dalcim?
Nilton Dalcim: Bom, eu sou jornalista esportivo desde os 18 anos, comecei na Gazeta Esportiva. Em 1980, resolvi tentar jogar tênis e me apaixonei. Por coincidência, meses depois, surgiu a oportunidade de assumir o cargo de colunista de tênis naquele jornal e em dezembro de 1980 passei a escrever diariamente, com a cobertura dos eventos internacionais. Dentro do tênis, fiz de tudo, revista, tv, rádio… Tive minha própria revista e agora, o site Tenisbrasil. Fora do tênis, realizei o sonho de cobrir duas Olimpíadas e uma Copa do Mundo. Acho que sou bem feliz com o jornalismo!
Esporte Social: O que é mais difícil quando se escreve sobre tênis, sobre tudo que é uma espécie de público muito mais exigente que os demais? E como lidar com as funções de blogueiro e editor de uma revista eletrônica de noticias que é o Tênis Brasil?
Nilton Dalcim: Exatamente isso. O público é muito especializado e exigente. É necessário sempre dar um pouco a mais do que a simples informação, porque o tênis é um esporte complexo. O Blog foi criado como uma forma de comentar notícias e dar informações de bastidores, mas principalmente fomentar a discussão sobre os vários temas que o esporte permite. O site tem vida independente, ou seja, o Blog é um adendo e não interfere no trabalho jornalístico do site em si. Muitas vezes, até discordo dele.
Esporte Social: Se você pudesse descrever cinco jogos onde a experiência de se assistir e comentar uma partida de tênis fosse tão prazerosa que transcendesse as alegrias, emoções inerentes a esse esporte tão apaixonante?
Nilton Dalcim: Bom, tive algumas grandes emoções. As vitórias de Guga no primeiro Roland Garros e a de Lisboa, em 2000, quando virou número 1, foram as mais marcantes, em que virei mais torcedor do que jornalista. Também foram especiais a vitória do Borg sobre McEnroe em 1980, o recente título de Roger Federer em Roland Garros e o de Pete Sampras em 2002.
Esporte Social: Quais os maiores desafios para um jornalista esportivo ao abordar o tênis? O que ele precisa para ser um bom jornalista esportivo dessa modalidade?
Nilton Dalcim: Como é um esporte muito complexo, é preciso realmente entender seu funcionamento, dia-a-dia, aspectos técnicos e táticos. Porque existe muito mais do que jogar mal ou jogar bem por trás de uma vitória ou derrota.
Esporte Social: O que você pensa a respeito da atividade de ENSINAR tênis no Brasil? Digo isso porque ao que não vemos a divulgação de novos métodos de ensino para a prática de tênis no Brasil; ou mesmo pesquisas acadêmicas relevantes que possam melhorar o jogo dos nossos atletas, sejam eles amadores quanto profissionais.
Nilton Dalcim: Acho que o ensino aqui não difere muito de outros países. Temos hoje acesso ao que existe de mais moderno nesse aspecto. Isso só fica diferente no campo competitivo, onde ainda precisamos evoluir. Acho que falta exatamente esse trabalho mais acadêmico, somos muito fracos na literatura em geral do esporte e nas pesquisas de campo.
Esporte Social: O tênis feminino nos últimos anos vem sendo alvo de constantes críticas devido ao baixo nível técnico apresentado, onde tirando as irmãs Williams, não vemos tantas jogadoras técnicas como em tempos de Steffi Graf, Monica Seles, e Martina Navratilova. O que pode ser feito para mudar esse panorama? Está havendo uma entressafra no tênis feminino?
Nilton Dalcim: O que está faltando ao tênis feminino não é tanto qualidade, mas carisma. Acho que o tênis feminino evoluiu muito com os novos equipamentos, mas as meninas estão jogando de forma muito parecida e isso acaba ficando enfadonho. As diferentes se destacam, aí o caso das Williams, da Sharapova.
Esporte Social: Se você tivesse poder político para realizar modificações no tênis nacional quais são as medidas a curto, médio e longo prazo que você adotaria para reestruturar o tênis nacional masculino, feminino, de alto rendimento e amador?
Nilton Dalcim: O Brasil não tem como maior problema o competitivo. Veja que estamos hoje com três top 100, sempre colocamos 1 ou 2 juvenis no top 10 mundial. Então temos qualidade, mesmo sem trabalho organizado. O que falta mesmo é trabalhar a base, criar um sistema que facilite se jogar tênis. Como é um esporte muito complexo, estima-se que apenas 20% dos que começam a ter aulas continuem a jogar, porque às vezes você leva seis meses para sair da aula para o jogo. Então, quanto menos gente tentar, menos vamos ter. Aulas gratuitas, equipamentos mais baratos são essenciais. Daí naturalmente teremos mais jogadores competindo. Depois, precisamos criar uma forma de captar os talentos, que se perdem por falta de apoio todo santo dia. O vôlei chegou onde chegou porque soube aproveitar seus talentos.
Esporte Social: Mudando um pouco de foco, com essa revolução da internet, em especial nos últimos 5 anos, vemos que o número de publicações esportivas vem reduzindo na forma impressa e migrando para dezenas de portais, blogs, sites especializados; como você vê essa mudança de ares dos especialistas esportivos e jornalistas?
Nilton Dalcim: Não vejo nenhum risco para a mídia impressa, desde que ela saiba se modernizar. A Folha nunca vendeu tanto, nem faturou tanto com publicidade. No caso do tênis, temos hoje 3 revistas especializadas e uns 3 bons sites. Basta cada um achar seu foco.
Esporte Social: Ainda no assunto jornalismo, de que forma você viu essa extinção de obrigatoriedade do diploma de jornalista para definição de profissão propriamente dita? Digo isso, pois, sempre houve principalmente nos esportes mais técnicos como o golfe e o tênis, uma queixa dos amantes desses esportes com relação aos comentaristas que não eram insiders dessas modalidades, e agora com essa falta de obrigatoriedade os técnicos, ex-jogadores agora tem esse espaço para quem gosta de comentários mais técnicos.
Nilton Dalcim: Sou contra. Acho que os especialistas podem contribuir com o jornalismo diário, através de colunas, mas jamais ocupando um cargo como tal. Num país em que se já não se dá nenhum valor à educação e formação profissional, me parece um disparate. Mas sempre foi o sonho dos grandes jornais.
Esporte Social: Os blogs de jornalistas, sites especializados, e os diversos materiais divulgados na rede vieram de vez enterrar as publicações esportivas convencionais?
Nilton Dalcim: Novamente, acho que existe campo para todo mundo. A vida da mídia impressa ficou mais difícil, mais exigente. No entanto, os sites também têm dificuldade em manter um jornalismo de qualidade. Acho que os blogs foram uma grande revolução na comunicação, porque democratizaram o debate, ainda que muitas vezes fútil e mal conduzido.
Esporte Social: Indo para a questão da profissionalização, quais são os maiores desafios para os jovens que desejam profissionalizar no tênis?
Nilton Dalcim: O tênis é um funil, e a seleção vai se tornando natural. Há 20 milhões de tenistas no planeta, mas apenas 2000 profissionais, dos quais 200 ou 300 com reais condições de ganhar torneios. Então é preciso entender que essa é uma carreira que exige enorme dedicação, muita paciência e muito dinheiro. Sem esses requisitos, é praticamente impossível.
Esporte Social: Ainda na profissionalização, a seu ver quais os motivos de tantos jogadores não se arriscam jogar torneios de grande porte como os ATP’s e até mesmo Challengers ficando sempre no mesmo circuito de Futures ao redor do Brasil?
Nilton Dalcim: Os futures são o degrau mais baixo do tênis, então existem os que não conseguem mesmo avançar tecnicamente e os que se acomodam e se contentam em ganhar 2 mil dólares por mês jogando tênis, o que convenhamos não é um negócio tão ruim assim. É uma questão de ambição. Se você quiser ir para a frente, terá de arriscar.
Esporte Social: Mudando um pouco de assunto, atualmente na natação estamos em um momento delicado onde a evolução dos materiais esportivos está interferindo muito no desempenho de atletas mediano os transformando em mitos do esporte com records batendo a barreira do inimaginável, você acha essa revolução dos componentes, dos materiais esportivos podem interferir na atividade tênis nos próximos anos, ou mesmo se essas interferências de resultados serão tão impactantes quanto na natação?
Nilton Dalcim: O tênis já viveu sua revolução tecnológica entre o final dos anos 80 e o final dos anos 90, com a mudança no material das raquetes. Acho que não se conseguirá ir muito além disso. O tênis ficou muito mais veloz, até um amador consegue hoje dar velocidade ao jogo. Mas como tudo, houve a acomodação e essa diferença hoje não é mais tão relevante.
Esporte Social: Dalcim comparando o tempo em que você começou a gostar/jogar tênis até os dias de hoje, quais foram às maiores mudanças na mentalidade das pessoas que jogam tênis, quais eram os desejos da época, onde aquelas pessoas queriam chegar e como você vê essa onda de expansão no nosso esporte?
Nilton Dalcim: Acho que a TV foi essencial para o desenvolvimento do tênis no Brasil. As transmissões ao vivo popularizam termos difíceis, jogadores, torneios. E mostraram um universo extremamente interessante, de muito dinheiro, glamour. Acho que chegar ao profissionalismo se tornou um objeto de desejo maior para quem começa a jogar hoje. Para o amador, não vejo muita diferença, a não ser que hoje é possível evoluir tecnicamente mais rápido do que antes.
Esporte Social: Para finalizar agradeço a prestatividade e atenção em responder essas perguntas, e gostaria que você mandasse uma mensagem para os amantes do tênis que estão lendo o esportesocial.com
Nilton Dalcim: O tênis é considerado o esporte mais difícil que existe, porque envolve habilidades físicas, coordenação motora, velocidade de pensamento, reflexo, agilidade, força de perna, força de braço. Por isso, é um exercício espetacular tanto no aspecto físico como mental. Fortalece amizades, cria novos círculos de correspondência. Então, vá para a quadra e divirta-se.








Bacanas essas matérias com os jornalistas que cobrem tênis no Brasil, Flávio. Essa em especial ficou muito boa.
Párabens pelo site ótima entrevista !
ASSUNTOS ATUAIS
Obrigado pelo o apoio Márcia!
Atenciosamente.
Flávio – Esporte Social