Bate-papo com Alexandre Cossenza do Blog Saque e Voleio

Aug 1

Saque e Voleio

Alexandre Cossenza escreve em um dos mais populares blogs da globo.com o Saque e Voleio que é especializado em tênis, onde o seu diferencial é justamente a interação com os seus leitores através de palpites e análises todos estes sempre com uma visão despojada e inteligente sobre o esporte . Alexandre para quem não sabe Bacharel em direito, trocou os tribunais pelo jornalismo há sete anos e já trabalhou nas redações dos jornais “O Fluminense” e “Lance!“. Tem 32 anos e, como fã, acompanha a modalidade há mais de dez. Profissionalmente, cobre tênis há cinco temporadas.

Esporte Social: Olá Alexandre, primeiramente é um prazer ter suas palavras aqui no Esporte Social, desde já agradeço o pronto atendimento e a prestatividade para responder essas singelas perguntas. Gostaria de saber quando começou o seu interesse pelo o tênis, e como você saiu dos tribunais e foi virou um dos maiores colunistas do esporte do país?

Alexandre Cossenza: Eu fiz a faculdade de direito em Belém (PA), onde não havia – e ainda não há – espaço para crescer no jornalismo. Direito fazia mais sentido na época. Para você ter uma idéia, eu cheguei a Belém em 1994 e até hoje a repórter do Globo Esporte é a mesma. Então, você pode imaginar como é difícil encontrar espaço para trabalhar, né?
Meu pai, que era militar, morreu em 1999 (de Acidente Vascular Cerebral), em Belém. Minha mãe e eu, então, decidimos vir morar no Rio, onde tínhamos mais amigos. Eu, então, achei que era hora de tentar o jornalismo. Ainda estava com 24 anos e havia tempo para conseguir um segundo diploma e conseguir um belo emprego.
Com o tênis foi um pouco parecido. Eu sempre gostei de ver na TV. Sempre fui fã de Andre Agassi, mas só comecei a bater bola depois de 1999, quando ele foi campeão em Roland Garros. Comprei uma raquete igual à dele e comecei. Quando vim morar no Rio (em 2000), comecei a fazer aulas de tênis, e só fiz me apaixonar ainda mais pelo esporte. É uma modalidade que te desafia mentalmente, fisicamente e tecnicamente como poucas.

Esporte Social: Atualmente temos na data de hoje (Segunda-feira 27 de julho de 2009) dois jogadores no top 100 que são o Thiago Alves e o Marcos Daniel; na sua opinião o que falta para o nosso país despontar a chegar mais jogadores ao top 100? Você acha que essa entressafra no tênis brasileiro é uma fase que vai levar bastante tempo, ou ainda estamos ainda na ressaca da Guga – mania?

Alexandre Cossenza: É duro dizer isso, mas acho que falta dedicação dos atletas. Você acha que a Sérvia (só para dar um exemplo que está na moda) oferece boas condições de treino para seus atletas? Você já deve ter lido a famosa história de (Ana)Ivanovic (famosa tenista sérvia ex-numero 1 do mundo), que chegou a treinar em uma piscina durante a guerra. Muito do tênis é força de vontade. Os argentinos estão sempre nas cabeças, e não acredite que é porque a federação de lá é incrível – não é. A diferença é muito cultural. Eles não têm medo de viajar para a Europa, ficar meses treinando e jogando torneios pequenos, ficando em hotéis baratos e por muito tempo longe de casa. O tenista brasileiro, de modo geral, não quer ficar longe de casa, não quer ficar em hotel ruim. Como a maioria de nossos tenistas vem da classe média, eles estão acostumados com casa, comida e tudo bem confortável. É claro que, na comparação com a Sérvia, ajuda a posição geográfica deles. Há muitos torneios fortes, muitas academias boas, muitos técnicos capacitados. Não temos nada disso.
Não acho que seja uma fase ruim do Brasil. Acho que a Era Guga é que foi uma fase fantástica. Hoje, voltamos ao normal. Acho que continuaremos assim por algum tempo, pois não vejo ninguém despontando com talento acima do normal.

Esporte Social: Até que ponto você defende Alexandre que recursos públicos da Lei Agnelo/Piva sejam repassados para entidades (Clubes) privadas como, por exemplo, o EC Pinheiros que mantém diversos atletas do tênis com esses recursos? Digo isso, pois, quando o estado por meio desses repasses a essas entidades – que muitas das vezes não sabemos a que interesses servem e quem são as pessoas por trás – e não as devidas instituições como a confederação brasileira e as federações algo não está errado?

Alexandre Cossenza: Em tese, a Lei é bem feita. Cada clube/entidade precisa mostrar um projeto de como e onde vai gastar cada centavo adquirido com a Lei Piva. A lei também prevê que as contas sejam prestadas, com as devidas notas fiscais, e os Tribunais de Contas (TCM e TCU) devem fiscalizar isso. Até hoje, ninguém encontrou irregularidade. Espero que continue assim.

Esporte Social: Muito se fala do desempenho dos nossos jogadores em torneios internacionais, muitos culpam a transição na hora de profissionalizar o jogador jovem; mas porque em um país que tem diverso Futures como o nosso, os nossos jovens não conseguem resultados expressivos a ponto de angariar maiores patrocinadores, ou mesmo uma melhoria técnica adequada para competir com os estrangeiros?

Alexandre Cossenza: Aí a gente volta àquela questão da pergunta anterior. Se você freqüentar um torneio juvenil (um só) do primeiro ao último dia, vai ver um bando de garotos ouvindo seus Ipod e batendo papo em seus laptops. Não vejo tantos treinos. E se você ficar até o último dia, vai ver o quanto enchem a bola dos campeões. Os garotos começam a achar que estão jogando bem demais, e esse é o primeiro passo para lugar nenhum.
Quando esses garotos pulam para o profissional, sentem o baque. Os resultados não vêm e boa parte da molecada, quando percebe que o caminho é difícil, resolve partir para o tênis universitário americano. Isso virou uma tendência incrível ultimamente. É garantia de estudos e boa formação acadêmica (embora várias dessas faculdades que oferecem bolsas sejam bem fraquinhas também), mas praticamente garante o fim da carreira profissional.
Não estou criticando a escolha dos garotos. Cada um faz o que quer da sua vida. Entretanto, para o tênis brasileiro, é uma tendência bem ruim.
Você toca na questão dos patrocinadores, e muitos pais de atletas reclamam que não conseguem patrocínio. A dura realidade, no entanto, é assim: não é o patrocínio que vai te ajudar a obter resultados. É preciso vencer primeiro para conseguir patrocínios depois. Ninguém vai investir pesado em um garoto que venceu um torneio juvenil – até porque torneios juvenis não têm espaço na imprensa. É duro, mas é simples assim.

Esporte Social: Nesse ano a Confederação Brasileira de Tênis contratou o espanhol Emilio Sanchez como coordenador do tênis no Brasil. Desde Fevereiro quando foi a sua contratação o que realmente mudou ao ser ver no tênis brasileiro, haja vista que a principal missão do Emilio era aumentar o desenvolvimento da modalidade desde a base até o profissional?

Alexandre Cossenza: O que mudou? Que eu tenha visto nada. Em abril, o Emilio deu as diretrizes do que gostaria que a CBT fizesse. Até agora, não vi nada de concreto. O espanhol pede um centro de treinamento e a contratação de técnicos. A CBT prometeu, mas ainda não fez. Todos esperamos para ver o que sairá dessa parceria com o Emilio. É bom lembrar que não se pode culpar o espanhol (e a posição dele é muito confortável): ele foi contratado para dar as diretrizes e encontrar pessoas no Brasil capacitadas para exercer certas funções. Se isso não acontecer, a responsabilidade é inteiramente da CBT.

Esporte Social: Se você fosse ministro dos esportes por um dia, o que você faria para mudar o tênis brasileiro e colocá-lo como um dos expoentes do esporte?

Alexandre Cossenza: Acho que isso é impossível de fazer em um dia, mas eu começaria ordenando a construção de um grande centro de treinamento e a contratação de alguns técnicos estrangeiros. Seria uma baita polêmica trazer técnicos de fora, mas é preciso gente para mostrar aos nossos atletas o quanto é dura a vida lá fora. Acho que precisamos de ente que mude a mentalidade de nossos atletas.

Esporte Social: Quais projetos sociais direcionados ao tênis você tem conhecimento que estão em funcionamento?

Alexandre Cossenza: Eu conheço poucos, mas só de nome. Vou te dar um exemplo: há o Tênis na Lagoa, aqui na Lagoa Rodrigo de Freitas, dirigido pelo professor Alexandre Borges, que dá aulas a meninos carentes e tenta tirá-los das ruas. Uma iniciativa admirável e complicadíssima. Pena que eu nunca tomo vergonha na cara e vou lá fazer uma visita pessoalmente.

Esporte Social: O que você tem a dizer sobre o tênis universitário? Atualmente diversos tenistas em processo de profissionalização estão partindo para jogar ligas universitárias geralmente na Europa e nos EUA; como você vê essa ‘opção’ desses atletas a jogar ligas de menor expressão a aventurar-se no profissional?

Alexandre Cossenza: Eu não tinha visto essa pergunta, mas acho que já respondi acima. Rs.

Esporte Social: A pergunta que não quer calar: Porque os nossos jogadores brasileiros não buscam jogar torneios maiores como os ATP 250 e 500, e preferem jogar os torneios de menor expressão como os Chalengers e Futures? Há alguma maneira de mudar isso?

Alexandre Cossenza: É questão de mentalidade, e a escolha é difícil. Ficar num Challenger é garantia de avançar algumas rodadas e ganhar uns trocados. Num ATP, mesmo que pequeno (250), você corre o risco de estrear contra um cabeça-de-chave forte e cair logo de cara. Aí você perde dinheiro e deixa de ganhar pontos. Em compensação, tem a chance de ganhar mais pontos de uma só vez e treinar com caras mais fortes, viver num ambiente de gente que se esforça de verdade e tem mais talento.
Eu acho que, com a nova pontuação da ATP, que desvalorizou os Challengers, isso vai mudar cedo ou tarde. Os tenistas já perceberam que não dá mais para se manter no top 100 sem jogar alguns ATPs. Marcos Daniel está fazendo isso com mais freqüência, Thiago Alves também. Bellucci sempre arriscou os torneios maiores e só voltou aos Challengers porque está numa fase horrorosa.

Esporte Social: Oportunamente sempre temos polemicas a respeito das regras do tênis, e esse debate sobre a modificação de regras ainda gera bastante divergências entre os puristas, e os mais modernos; na sua opinião, o que poderia mudar nas regras do tênis para tornar o esporte mais atrativo para o público, e para cobertura televisiva? Digo isso, pois as transmissões da emissora de TV por assinatura BandSports têm coberturas bem econômicas em tempo; e não demandam uma equipe tão grande de profissionais envolvidos, pois o próprio sinal é gerado por emissoras locais.

Alexandre Cossenza: Não vejo o que mudar na regra. Para adaptar o tênis à TV, é preciso limitar o tempo, mas isso é radical demais para um esporte tradicional como o nosso. Então, como não é possível prever o tempo de um jogo, fica complicado encaixar um torneio na grade de uma emissora com muita programação ao vivo/quente, como a Globo. Acho que o tênis ruma para ser um esporte feito para TV a cabo. Espero que no futuro tenhamos mais canais como o americano Tennis Channel, 24h sobre o esporte.
Quanto ao BandSports, eu não posso falar direito, até porque sou funcionário da concorrente. Se eu criticar, parece falta de ética ou tentativa de agredir o adversário. Rs.

Esporte Social: Alexandre desde já agradeço a prestatividade por atender gentilmente esse site, desejo pra você todo o sucesso do mundo e que o Saque e Voleio continue por muito tempo.

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