Feeds:
Posts
Comments

Extraído de: http://blogdojuca.blog.uol.com.br/

A cena é comum hoje em dia: ao fazer um gol, o jogador sai correndo ─ de preferência em direção a uma câmera de televisão ─ e, com os braços para o céu, agradece a Deus! Alguns, com os dedos indicadores em riste, parecem entabular verdadeiros diálogos com o Criador, antes de serem afogados pelos abraços da comemoração. Às vezes, a câmera de televisão, onipresente, mostra também o goleiro solitário, lá atrás, ajoelhado e orando com as mãos em côncavo ─ os olhos fechados dando-lhe uma compenetração digna de muçulmano voltado para Meca!

Novos tempos, novos signos. Quando eu era menino, geralmente o gol era comemorado com o jogador pulando e dando no ar o famoso soco de Pelé. Eu até pensava que isso fazia parte do gol. Todos nós, nas peladas, fazíamos assim. Ainda lembro o quanto achei estranha a comemoração de Rivelino quando fez o gol de empate contra a Tchecoslováquia na Copa de 70: em vez de pular, ele saiu feito um louco pisando furiosamente o gramado e, com os punhos cerrados, agitando os braços em direção ao chão. Parecia partindo para a quebrar a cara de um desafeto! Logo depois, Pelé fez o segundo gol e repôs as coisas nos devidos lugares: corrida, salto e soco ─ no ar!

Desde então descobri que o estilo Pelé era apenas o reflexo de sua maravilhosa hegemonia nos gramados do mundo. Outros astros, outros estilos. Reinaldo, em plena ditadura, fez história com sua comemoração imitando os militantes do Black Poweramericano: parado, grave, o braço esquerdo por trás do corpo e o braço direito, com o punho sempre cerrado, retesado feito uma Estátua da Liberdade sem tocha… Passemos.

Um estrangeiro recém-desembarcado entre nós, vendo a atual onda de fervor nos estádios, concluiria logo pela profunda religiosidade do povo brasileiro. Um brasileiro desconfiado como eu, leitor de Sérgio Buarque de Holanda, perguntaria se o fenômeno não seria, justamente, um exemplo a mais da superficialidade do nosso sentimento religioso! O assunto foi tratado no clássico Raízes do Brasil. Nele, Sérgio Buarque chama a atenção para o nosso catolicismo que “permite tratar os santos com uma intimidade quase desrespeitosa”, tendo muito pouco a ver com “um sentimento religioso verdadeiramente profundo”.

O julgamento, é claro, não pode ser generalizado e precisa de nuances. No curto espaço de um artigo de jornal basta dizer que, aqui, estou me referindo à proliferação, no Brasil, de imagens, símbolos e frases religiosas em locais onde, mais do que uma veneração verdadeira ao Senhor, parece estarmos diante de uma invocação do “seu santo nome em vão” ─ para usar a fórmula consagrada nos Mandamentos. Veja-se uma Copa do Mundo. Rezas, velas, pragas e promessas para o Brasil ser campeão! Nunca entendi por que diabo ─ se cabe a palavra aqui ─ Deus, com tanta coisa para se ocupar, iria perder seu precioso tempo com isso. Aliás, sempre achei que, se fosse o caso de interferir em negócios tão frívolos, Ele faria melhor em dar uma força a países que nunca ganharam, não ao Brasil, que já foi campeão cinco vezes. Num adendo de justiça social, eu, se Deus fosse, daria o título a um daqueles raros países africanos que de vez em quando lá chegam. Imaginem agora se envolver no resultado de um jogo Náutico X Sport!

Na verdade, o que merece uma reflexão maior do que simplesmente ironizar a presença de Jesus em camisas de jogadores ─ afinal, uma bobagem ─, é o fato mesmo de encontrar sua presença em contextos em que ela não se encaixa, por se tratar de situações onde não se vislumbra nenhum traço da mensagem de amor do nazareno ─ executado na cruz entre dois ladrões… Veja-se o caso do famosoPropriedade Exclusiva de Jesus, que se vê em tantos carros por aí. Imagino um assaltante chegando para roubar. O sujeito, se estiver com um revólver no porta-luvas, é capaz de lhe dar um tiro. Como sou humano e normal, sou até capaz de compreender seu gesto. Só não sei é se o proprietário do carro aprovaria…

Leave a Reply

Spam Protection by WP-SpamFree